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MÚSICO FEIS FERES

MINHA CIDADE, MINHA VIDA

 

 




Feis Féres, uma vida nos palcos

 

 

A música tem história em Marília e principalmente sinônimo: Feis Féres. Isso mesmo, esse senhor que vai completar 80 anos em fevereiro passou meio século de vida nos palcos brasileiros, talvez espiritualizado por Miguel de Unamuno Jugo, escritor, poeta e filósofo espanhol, que no final do século 19 proferiu: “Entre as graças que devemos à bondade de Deus, uma das maiores é a música. A música é tal qual como a recebemos: numa alma pura, qualquer música suscita sentimentos de pureza". Assim é Feis Féres, uma mescla de dedicação, amor e talento. Fortuna com a música? Nem pensar. Ele animou tantos bailes apenas pelo prazer de vivenciar essa imensurável paixão, um dom que os filhos herdaram e dividiram o deleite com o público até 1998, quando a ribalta se apagou nos derradeiros acordes da banda Transa Som. Essa intimidade de Féres com a música começou em grande estilo no ano de 1948, com o grupo Bambas do Ritmo, que abriu show do comediante Oscarito no extinto cine São Luís. E a trajetória nunca desafinou, embalando gerações num universo de viagens, improvisos, glamour, calotes, e outros ingredientes inevitáveis nessa profissão.  

 

Filho dos libaneses Uenis Féres e Maria, Feis e seus irmãos – José, Sofia, Marta, Nely, Nancy e João – nasceram na cidade de Gavião Peixoto, região de Araraquara. Quatro anos após a morte do pai, em 1939, sua mãe mudou-se para Marília com os filhos ainda menores (exceto o primogênito José). Apesar das parcas economias, Maria alugou a casa de número 60 na rua Bandeirantes e conseguir adquirir um empório na rua 9 de Julho esquina com a 4 de Abril. Depois, o trabalho passou a ser a marca registrada dessa família. Feis Féres foi casado com Maria Zilda Fontoura Camargo (falecida em 14/2/1987) com quem teve quatro filhos: Feis Féres Júnior (falecido em 25/10/2006), Ana Maria, Omar e Mário. Tem oito netos e no mês quem chega Beatriz, a primeira bisneta. 

 

                                                                *

  

Diário de Marília – Onde o senhor passou a infância e iniciou os estudos?

Feis Féres – Foi em Gavião Peixoto e Araraquara. Futebol no campinho, “garrafão” e pique-salvo eram as diversões preferidas da garotada. Quando vim para Marília continuei os estudos no Ginásio Municipal e na Escola de Comércio do Senac, com a professora Minie Povoas. Cheguei a cursar até o 2º ano de Direito na Fundação “Eurípides Soares da Rocha”. Não pude continuar devido aos compromissos com a música.

 

Diário – O senhor foi namorador na juventude?

Feis – Mais ou menos, gostava de freqüentar o footing na avenida Sampaio Vidal, o Cine Marília, Tênis Clube e Alfaiates.

 

Diário - Como conheceu a Maria Zilda?

Feis – Ela foi mais um presente que a música me deu. Eu tinha 25 anos e estava com os amigos numa brincadeira dançante num salão da avenida Sampaio Vidal, em cima do Bar Avenida. De repente notei uma garota sozinha na sacada do prédio e logo puxei assunto. Eu tinha uma orquestra à época e naquela noite iríamos nos apresentar no Clube dos Alfaiates. Convidei-a para o show e ela aceitou. Aí começamos a namorar. Era aquele namoro bem sério, de pegar só na mão e olha lá...  Casamo-nos em julho de 1956 na Igreja Santo Antônio.

 

Diário – Onde foi seu primeiro emprego?

Feis – Foi na casa de tecido Mina de Retalhos, no centro da cidade. Depois ingressei no banco Noroeste como contínuo até chegar a chefe de seção. Quando iria ser promovido, pedi demissão, pois fui trabalhar no bar e restaurante da rodoviária que minha mãe havia comprado, na Armando Sales de Oliveira, hoje estacionamento do Torra-Torra. Pouco tempo depois, em 1960, abri a loja Tenda do Pai Thomaz, na mesma rua, onde mantenho o comércio até hoje. 

 

Diário – O que representa para o senhor a Tenda do Pai Thomaz?

Feis – Uma vida, já que ela está completando 48 anos. Trata-se de um comércio de imagens sagradas e complementos relacionados com a Umbanda, Quimbanda, Candomblé e outras seitas e religiões originárias de elementos afro-brasileiros. É um ramo que eu aprendi a gostar demais, pois a gente se comove com a fé e humildade das pessoas.

 

Diário – O senhor é considerado um ícone da música mariliense. Como a carreira começou?

Feis – Ainda muito jovem entrei para o conservatório musical com mais 10 amigos. Todos desistiram e continuei me aperfeiçoando no saxofone. Também fui cronner de orquestras, até formar o conjunto vocal Bambas do Ritmo, que consistia em cinco vozes e uma só melodia. Sinto muitas saudades. Em 1948, Oscarito, para mim o melhor comediante do Brasil, iria se apresentar em Marília no cine São Luiz e a comissão do evento nos convidou para fazer a abertura e o encerramento do show. Foi um sucesso, tanto que Oscarito nos chamou para o restante da sua turnê até o sul do país. E disse mais, que nos levaria para o Rio de Janeiro e nos “encaixaria” na Rádio Nacional, que era o auge na época. Mas, por falta de entendimento, acabou não dando certo e com a saída de dois percussionistas o conjunto acabou.

 

Diário – E o que veio depois?

Feis - Prossegui como cronner de algumas bandas até montar a minha, “Feis Féres e sua Orquestra”, em 1957, composta por 18 músicos. A aceitação foi total. Eu comprava aqueles arranjos musicais em São Paulo, do Glen Miller, Benny Goodman  e do famoso pistonista Harry James. Trazia as partituras e a orquestra ensaiava à exaustão, para que a música fluísse bem. O arranjo de Moonlight Serenade, por exemplo, era tão perfeito que, a pedidos, a música era tocada até três vezes em cada baile. O público delirava com a orquestra e não cessava com os aplausos. E isso aconteceu em muitas cidades brasileiras. Em Marília o coração bate mais forte quando me recordo do Clube dos Alfaiates. Foram tantas noites inesquecíveis que as lágrimas começam a brotar.

 

Diário – Foi com essa orquestra que o senhor estreou seu primeiro ônibus?

Feis – Rapaz, nem gosto de lembrar. Aquilo foi um desastre. Fomos para Londrina, estrada toda de terra, para um show no sábado. Só na ida dois pneus estouraram. O pior foi a volta. Mais dois pneus estourados e o ônibus quebrado. Quatro dias na estrada, sem tomar banho e passando necessidades. Só conseguimos chegar em Marília na quarta-feira. Então pensei: meu Deus, impossível acontecer mais alguma coisa. Não é que o motorista, ainda de madrugada, foi sozinho com o ônibus até Garça, pois ele morava lá, e acabou trombando? Aí não teve jeito, levei o ônibus para benzer...

 

Diário – Por que a orquestra acabou?

Feis – Tanto a orquestra como qualquer conjunto, se você não ensaiar bastante a coisa não vai. Havia músicos que moravam em Vera Cruz, Garça e outras cidades, e foi ficando cada vez mais difícil reuni-los. Você tem cinco saxofones, pistons e trombones. Se um elemento desfalca o grupo, já compromete a qualidade do som. Por isso, infelizmente, a orquestra terminou.

 

Diário – Como surgiu o Transa Som?

Feis – Em 1972, com a participação dos meus filhos Júnior e o Omar, que tinha pouco mais de 10 anos. A Ana Maria e o Mário, que tinha pouca idade, só vieram depois. A essência era minha família, mas ótimos profissionais integraram o grupo.

 

Diário – O senhor insistiu para que os filhos se tornassem músicos?

Feis – Não, sempre proporcionei o melhor estudo a eles porque sabia do futuro incerto que tem esse profissional. Mas em casa a gente respirava música. Eu sempre mantive muitos instrumentos no fundo do quintal. Quando as crianças chegavam da escola, cada uma pegava o seu e tudo era uma festa. Assim nasceu o Transa Som, numa época que Marília contava com cerca de 20 conjuntos.

 

Diário – Como foi a estréia do Transa Som fora de Marília?

Feis – Num reveillon em São Carlos. Somente quando chegamos na cidade me informaram que das 23h às 2h iríamos tocar apenas músicas suaves para uma platéia seleta. Depois é que as portas seriam abertas para o público. Aí me deu aquela tremedeira, por causa de tamanha responsabilidade: o cachê era generoso e os músicos inexperientes. Transmiti otimismo a todos, escondendo a minha preocupação. Não deu nem 20 minutos de som e todos os casais largaram a ceia e começaram a dançar. Aplausos e mais aplausos. Depois das duas da manhã, então, com toda aquela moçada animada lotando o clube, o baile “pegou fogo”. Foi memorável. O êxito dessa apresentação espalhou-se e posteriormente ficou difícil achar uma data na agenda do conjunto.

 

Diário – Então o grupo foi se modernizando?

Feis – Sim, até que consegui comprar um caminhão, pois usávamos cerca de 25 caixas de som, mais de 20 microfones, indumentárias e outros acessórios. Certa vez um empresário me procurou e disse que na Hípica de Campinas nunca aparecera uma banda que agradasse o associado no carnaval. E lá fomos nós. Levei cinco “transetes” (bailarinas) e fomos ovacionados. Sete horas da manhã e não havia como deixar o palco.

 

Diário – Cite mais alguns eventos marcantes.

Feis – Foram muitos, principalmente quando me apresentei com meus filhos no famoso programa “Almoço com as estrelas”, do Airton Rodrigues e Lolita, na TV Tupi. No tradicional “Baile das Personalidades”, em Piracicaba, abrilhantamos shows de Pedrinho Mattar, Isaurinha Garcia, entre outros. Também acompanhamos Luiz Ayrão, Jorge Ben e Agnaldo Rayol. O Transa Som tinha repertório variado e agradava aos mais diferentes tipos de público. Alguns de nossos profissionais se caracterizavam de Maria Bethânia, Cauby Peixoto, Raul Seixas e Edit Piaf e davam um verdadeiro espetáculo.

 

Diário – O Transa Som encerrou as atividades depois de 26 anos, em 1998. Por quê?

Feis – Pelos mesmos motivos da orquestra, ou seja, as dificuldades com o ensaio. Meus filhos já estavam residindo em outras cidades, cada qual seguindo sua profissão, tornando-se inviável a continuidade do conjunto.

 

Diário – Como o senhor “administrava” calotes, brigas no salão, embriagues e outros acontecimentos próprios de bailes?

Feis – Bom, é difícil você apontar uma banda que nunca tomou um calote ou qualquer prejuízo financeiro. Mesmo sabendo que o cano poderia acontecer, a gente, pelo respeito que sempre nutriu pelo público, nunca deixou de tocar. Antigamente os contratos eram informais, às vezes só na palavra. E o pagamento era feito após as apresentações. Com o tempo, tentava-se negociar com o caloteiro para que o prejuízo não fosse total. Hoje é tudo diferente. Ninguém canta e toca sem pagamento antecipado. Quanto a brigas, não tenho nenhum fato relevante pra contar. Em todas nossas apresentações, graças a Deus, prevaleceram a animação e o respeito do público.

 

Diário – Mas os músicos tomavam uns “gorós” pra manter o pique, né?

Feis – É evidente que sempre alguma coisa escapa. Mas eu era muito rígido, não admitia em hipótese alguma misturar bebida alcoólica com trabalho. Após os shows, tudo bem, o pessoal entrava no uísque e cerveja. Lembro-me de uma passagem por Três Lagoas (MS). O baile fervia e todo mundo queria saber como o Transa Som conseguia manter aquela energia por tantas horas. Até que uns diretores entraram no camarim e só viram água mineral. Ficaram boquiabertos.

 

Diário – O senhor alguma vez se decepcionou com a música?

Feis – Tive um desânimo em virtude do avanço tecnológico, quando ao apertar um simples botão a pessoa tirava um arranjo. Ao preparar uma música (acordes e harmonia) a gente levava 10 dias para se chegar à perfeição. Mas, durante todos esses anos, sempre acompanhei a “onda”. Quanto mais versátil o repertório, melhor. Por exemplo, no auge das discotecas, nos anos 70. Você tinha que apresentar uma seleção dessas músicas, porque elas estavam na boca do povo. Por isso que o Transa Som era tão solicitado. E hoje, modéstia à parte, seria um dos melhores conjuntos do Brasil, porque capacidade nunca faltou aos seus integrantes.

 

Diário – A música lhe deu muito dinheiro?

Feis – Não, porque vivi a música como uma arte e toda arte requer apenas muito amor e dedicação. Ganhar dinheiro no interior sempre foi mais difícil. Hoje você vê algumas bandas insignificantes fazendo sucesso com cachês milionários. O poder econômico as impulsiona através da mídia e por trás de tudo isso há muitos interesses. É duro lembrar de tantas orquestras maravilhosas que não tiveram o apoio necessário e acabaram na amargura. Consegui estudar todos meus filhos porque nunca parei de trabalhar. Permita-me aqui lembrar o político grego Péricles: “O segredo da felicidade está na liberdade; o segredo da liberdade está na coragem".

 

Diário – O senhor quer deixar alguma mensagem nessa entrevista?

Feis – Gostaria de aproveitar esse espaço e expressar aos meus filhos sobre a sua importância em minha vida. O Júnior, baterista, tecladista e um ótimo cantor. Gravou um CD em cinco idiomas e foi um excelente dentista. Ainda estou atordoado com a sua partida prematura, mas tenho certeza que ele está ao lado de Deus nos abençoando. O Omar, que tirava uma guitarra como ninguém, tocava também contrabaixo, dava show no cavaquinho e era muito animador. Hoje é um médico bem conceituado em Ribeirão Preto O Mário, cirurgião-dentista em Londrina, com muita dedicação à música, pianista, guitarrista, baterista e que já se apresentou diversas vezes no exterior. E a Ana Maria, advogada e empresária (Ótica Féres) que também cantou em muitos bailes do Transa Som.

 

Diário – Mais alguma coisa?

Feis – Marília, cidade do meu coração. Cidade que me deu cultura, situação financeira e muito amor. Marília, eu te amo muito!

 

 

FRASES DE EFEITO

 

“O ensaio é a alma de qualquer grupo musical”

 

“A música é uma arte que requer amor e dedicação”

 

“O Transa Som seria hoje um dos melhores grupos do Brasil”

 

“Muitas orquestras não tiveram apoio e acabaram na amargura”


 

 

Matéria publicada em 2008 no jornal Diário de Marília – jornalista Vadinho Doreto

 

 


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