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JORGE MARQUES PINTO




MINHA CIDADE, MINHA VIDA

 

A CIDADE DE MARÍLIA NA VIDA DE JORGE MARQUES PINTO

(texto publicado na íntegra – dia 7/12/2008)

 

Dificilmente alguém faz uma pausa para pensar: de onde vem essa família? Que sobrenome é esse? Por que essa rua leva tal nome? E essa praça? Quem foi fulano? E ciclano? A finalidade primordial desta página é proporcionar ao leitor, sobretudo o mais jovem, alguns capítulos da história de Marília, revelando a trajetória de pessoas que de alguma forma deram um empurrãozinho no desenvolvimento da cidade. Pessoas essas que, na maioria das vezes, não integram o jet set, não aparecem em colunas sociais e são avessas a badalações. Pessoas que quando doam uma cesta básica em programa televisivo ou outro do gênero, ou então praticam uma caridade, optam pelo anonimato e abominam a ostentação. São, na verdade, o que se pode chamar de pessoas humildes. Têm família. E vida. E história. Pessoas que durante décadas não foram lembradas pela Câmara Municipal para a outorga de um título de “CIDADÃO MARILIENSE” – muito menos seus ascendentes. Jorge Marques Pinto é uma dessas pessoas. Assim como sua esposa Odaleia. Aos 83 anos (* 29/5/1925), com quatro décadas dedicadas à regional da secretaria estadual da Fazenda, ele recebeu essa semana a reportagem do Diário em sua residência (rua São Paulo, 220, centro) e, com muita clareza, contou sobre a chegada dos pais na cidade, parte da infância e adolescência suprimida por um colégio interno, o amor pela música que originou dois grupos de samba, e a ascensão e o declínio financeiro da família. Primo de Guaraci Marques Pinto, o Pé-de-Veludo, ele também deu umas pinceladas no cotidiano mariliense, até apontando soluções para o problema da falta de água e o caótico trânsito. A reportagem também aproveitou a ocasião e conversou um pouco com a esposa de Jorge, a talentosa artista plástica Odaleia Viana Marques, que até hoje guarda seu acervo de quadros e esculturas na garagem de casa, porque a cidade, que sempre foi inconsistente no âmbito cultural, padece de infraestrutura para exposições públicas.   

 

                                                            *****

 

Diário de Marília – Por que seus pais vieram morar em Marília?

Jorge Marques Pinto – Minha família é da cidade paulista de Igarapava [região norte do Estado, quase na divisa com Minas Gerais], onde também nasceram meus irmãos.  Chegamos a Marília no ano de 1931, quando eu, o caçula de cinco irmãos, tinha seis anos. Com certeza meu pai tomou essa decisão em virtude das conversas de que Marília tinha tudo para ser uma cidade próspera e com muitas frentes de trabalho. Ele se chamava Teodoro Marques e minha mãe Ana da Silva Pinto.    

 

Diário – E seus irmãos?

Jorge – Éramos cinco. A Olga, a primogênita, reside até hoje na avenida Santo Antônio. A Marcionília, o José e o Paulo já faleceram.

 

Diário – Como foi o começo de uma nova vida na cidade?

Jorge – Papai tinha algumas economias e não demorou muito para montar o Bilhar Avenida em 1935. Foi um dos pontos mais frequentados da cidade durante 15 anos. Era um prédio grande, na quadra 600 da Sampaio Vidal. Tão amplo que morávamos nos fundos. Depois nos mudamos para uma casa na rua Carlos Gomes. Era tudo terra. A maior diversão com meus amigos era brincar nos barrancos que cercavam a variante da linha férrea, que se estendia por toda rua Maranhão, onde os trens faziam manobras. A garotava aprontava bastante. Lembro-me do Alcebíades, Amílcare, Deni, Darci e Zito. Meus irmãos e eu estudamos no 1º grupo da cidade, também na Sampaio Vidal. Mais tarde ele seria transferido para a Pedro de Toledo com o nome de Thomaz Antônio Gonzaga. Logo acabei indo para Campinas.

 

Diário – O senhor foi continuar os estudos?

Jorge – Exatamente, fiquei uns oito anos em Campinas. Voltei em definitivo para Marília em 1940, ao completar 15 anos. Era vontade de meu pai proporcionar pelo menos para um dos filhos um estudo de boa qualidade. Ele teve condições então de me matricular no famoso “Colégio Ateneu Paulista”. De lá saíram incontáveis expoentes em todas as áreas profissionais.

 

Diário – O regime era de internato?

Jorge – Sim, e muito rígido. No Ateneu tinha horário para tudo, um verdadeiro quartel. É lógico que tínhamos momentos de lazer, mas ali eu aprendi o real significado da palavra disciplina e o quanto ela é importante na vida do homem. Assim foi parte da minha infância e adolescência, com a liberdade bem restrita.

 

Diário – Mas o senhor vinha sempre a Marília?

Jorge – De que jeito? Não havia facilidade no transporte. Só vinha para cá nas férias, ou seja, duas vezes por ano. Voltei com o segundo científico concluído.

 

Diário – Aí o senhor aproveitou a juventude em Marília?

Diário – Principalmente o footing. Era sagrado. A Sampaio Vidal fervia aos domingos. O pessoal mais simples circulava pelas calçadas e os mais abonados andavam no meio da avenida. A verdade é que nessa época, anos 40, a cidade tinha poucas opções de lazer. Além do bilhar do meu pai e essa paquera na avenida, restavam apenas os cines São Luiz e Marília, se não me engano.

 

Diário – E a zona do meretrício?

Jorge – Ah, sim, ali o vai-e-vem era grande. Gente de todo tipo e muitos barões do café. Corria dinheiro na cidade. A grande maioria dos homens se divertia no centro até por volta da meia-noite e depois esticava a madrugada na zona e nos bordéis. O futebol também nunca faltou em Marília. Em qualquer espaço o pessoal batia uma bola.

 

Diário – Foi nessa época que o senhor começou na música?

Jorge – Eu sempre gostei de cantar, sou um seresteiro autêntico e apaixonado por Orlando Dias, Carlos Galhardo, Silvio Caldas, Francisco Alves, Altemar Dutra entre outras estrelas do nosso cancioneiro. Quando tinha 17 anos o grupo musical que mais fazia mais sucesso no Brasil era o “Anjos do Inferno”. Então, com alguns amigos também afeitos à música, fundamos o grupo “Sentinelas do Inferno”, um samba de bamba. E nos apresentávamos em vários lugares. O Bertolotti e eu batíamos o pandeiro, tinha o Antônio, na viola, Erasmo no cavaquinho, Paulo na maraca e o Linguicinha no afuchê [instrumento de percussão de alta sonoridade e resistência].

 

Diário – E o sucesso?

Jorge – Olha, o sucesso veio mesmo com outro grupo do gênero, o “Anjos da cara 11111suja”. Aí a coisa andou. Em todos os eventos da cidade e região a gente dava um showzinho.

 

Diário – E quem integrava esse grupo?

Jorge – Bibiano, Benê Pinheiro, Peixe, Carlos Bertolotti, Erasmo, Paulo Pedrosa e o Zico Pedrosa. Depois que me mudei para Rio Preto, em 1948, aí não deu mais para continuar. Guardo até hoje minha imensa coleção de discos de vinil e me orgulho de ter gravado um CD, com o Aparecido ao violão. Gravei sucessos como Malandrinha, a Deusa da Minha Rua, Sertaneja, entre outras. Após o casamento, ficou só a saudade, mas continuei cantando em corais, igrejas e outros eventos similares, além de animar campanhas assistenciais.

 

Diário – Voltando ao seu pai, como era o movimento no bilhar?

Jorge – Você sabia que antigamente, o jogador de bilhar, principalmente o bom de taco, era muito respeitado? Bilhar era sinônimo de status. O salão do meu pai começou com duas mesas e chegou a ter oito, até a de “carambola” [mesa sem caçapa, em que o jogo tem apenas três bolas e todas precisam se tocar, numa só tacada]. Por lá passaram exímios jogadores do Brasil, até o famoso Carne Frita. O ambiente era familiar e agradável. Todo mundo de terno e gravata, exibindo muita elegância.   

 

Diário – Por que o bilhar fechou em 1950?

Jorge – A situação financeira de meu pai era excelente. Em 1948 ele ficou sabendo que o tradicional Cine Bela Vista, na rua Francisco Glicério, em São José do Rio Preto, estava sendo arrendado. No local havia 20 mesas de bilhar, além de charutaria, revistaria, bar e outras lojas de apoio. Você já imaginou, 20 mesas de bilhar numa cidade opulenta como Rio Preto? Mamãe não queria de jeito nenhum que papai fechasse o negócio. Teimoso, ele fez um acordo verbal (cinco anos de uso) com seus colegas da maçonaria, ou seja, os poderosos irmãos Curti, que eram “donos da cidade”, e fomos para lá. E o salão aqui ficou funcionando normalmente. Mas papai não pensou numa coisa muito importante: Rio Preto não era Marília. O município lá já era bem desenvolvido, muito rico, com uma pecuária fortíssima e, consequentemente, com várias opções de lazer. É claro, a frequência no salão não foi a esperada. Só que papai foi levando, até que, após dois anos, a família Curti descumpriu o trato. Pediu o prédio para a instalação de uma grande loja. A indenização que papai recebeu foi insuficiente, então ele teve que vender o prédio do bilhar em Marília para a família Ottaiano e assim quitar os compromissos com os inúmeros funcionários. Além do mais, perdeu todas as mesas do salão de Rio Preto. Foi uma tristeza.

 

Diário - Então ele parou com o bilhar?

Jorge - Não, ele ainda conseguiu montar em Marília com muito sacrifício na rua Armando Sales de Oliveira, o Bilhar Acadêmico, que era ponto principalmente dos hóspedes do hotel Santa Helena, que ficava ao lado. Mas foi só por dois anos, até 1952, quando ele veio a falecer.

 

Diário - Mas Rio Preto também lhe traz boas recordações, né?

Jorge - Sim, porque foi lá que conheci num jogo de futebol, Odaleia Viana Marques, que viria a ser minha esposa. Amor à primeira vista. Namoramos apenas oito meses e nos casamos em 20 de abril de 1950. Há 58 anos, é mole? Logo depois do casamento viemos para Marília e fomos morar com meus pais na rua Sorocaba, onde hoje é o Chaplin. Ali havia várias casinhas de madeira. Temos três filhos: Sérgio, aposentado da Caixa Econômica Federal, Luciano, delegado corregedor de Polícia na cidade de Tupã e Ana Lúcia, funcionária do Daem. Os queridos netinhos são seis: Alécio, Adriano, Thiago, Janaína, Fernanda e Adriana.

 

Diário – Quando o senhor ingressou na secretaria de estado da Fazenda?

Jorge – Em 1952. Exerci as funções de escriturário, escrivão e coletor até aposentar-me em 1991 como Supervisor Regional de Arrecadação de ICM.

 

Diário – Saudades?

Jorge – Tudo que é bom deixa saudades. A secretaria da Fazenda é sinônimo de seriedade, muito trabalho e responsabilidade. Tive vários amigos, principalmente no nosso time de futebol. Mas, da minha repartição, não me esqueço do Jorge Hidalgo Neto, Francisco Chaves de Moraes, Maria Antônia Miranda Ceroni (mais conhecida como Miriam), Mário Coraíni Júnior, Mário de Carvalho Neto, Clóvis Marques Guimarães, Mário Sales Marins, Sérgio Augusto de Arruda Paes, Wanderlei Osti Cardoso, Lauro Turíbio, Joaquim Rodrigues Mendonça, Otacílio Ramos, José Tognolli, Antônio Marcelino, Tales Monteiro e Arruda Paes.

 

Diário – Falando em política, qual prefeito o senhor acha que fez uma boa administração?

Jorge – Gostava muito do Adorcínio de Oliveira Lyro... fez muitas coisas para a cidade, assim como seu filho Theobaldo viria a fazer muitos anos depois. Tatá e Pedro Sola eram muito populares e vestiram Marília com uma roupa nova. O Biava teve a visão de começar a se preocupar com a questão da água, construindo uma adutora. Também merece os parabéns. Prefiro não me estender sobre esse assunto.

 

Diário – Suponhamos que o senhor tivesse  sido eleito o chefe do Executivo nas eleições passadas. O que faria a partir de 1º de janeiro?

Jorge – Investiria pesado na questão do abastecimento de água, uma humilhação que o povo carrega há anos. O Rio do Peixe está sepultado, a represa Cascata um caos. E o que adiantou se gastar uma fortuna no Arrependido, Ribeirão dos Índios e não sei mais lá o quê, se o problema persiste? Alguma coisa está errada. Ou falta capacidade dos homens públicos ou o dinheiro não está indo de encontro ao seu objetivo. Poço profundo resolve em parte. Depois de 20 anos ele está inutilizado. Aqui não é Bauru. Lá fura-se 300 metros e a água jorra. Aqui é necessária uma perfuração superior a 1.000 metros. E tudo isso custa muito dinheiro, por isso, a responsabilidade no trato com a coisa pública está em primeiro lugar. Se você andar pela cidade vai encontrar diversos chafarizes e aquele desperdício de água. A nossa rede de esgoto, que tem mais de 50 anos, está obsoleta. É mais problema que eu iria solucionar, além do catastrófico lixão.

 

Diário – Mais alguma coisa?

Jorge – Também iria investir no trânsito. Contrataria uma equipe, nem que fosse de outro planeta, que realmente entendesse do assunto, gente capacitada, verdadeiros profissionais da área, com nenhum vínculo político na cidade. Com o que temos aí, a tendência é piorar. O pessoal é esforçado, mas limitado. O calçadão, por exemplo, ficou bom para o pedestre, mas estrangulou mais ainda o trânsito no centro. Caminhões circulam na cidade em qualquer horário, mais um problema... ônibus então... instalam pontos em locais impróprios, como na frente do Teatro e da CPFL (Jardim Bandeirantes)... aí vira aquela bagunça. Você viu como ficou agora a rua das Roseiras? Deixa os universitários voltarem das férias pra ver como vai ficar a cidade.  

 

Diário – Bem, o assunto agora é Guaraci Marques Pinto, o famoso Pé-de-Veludo.  O senhor sofreu algum tipo de discriminação por ele ser seu primo?

Jorge – Em hipótese alguma, nem na vida social, nem na profissional.

 

Diário – O senhor teve muita convivência com ele?

Jorge – Mesmo ele sendo meu primo, nossas famílias praticamente não se relacionavam. Sei que o Guaraci sempre procurava meu pai quando precisava de uma ajuda. Sua família era muito pobre. Não tenho certeza, mas parece que ele tomou outro rumo na vida depois que papai morreu e não pôde mais auxiliá-lo. Entretanto, não estou aqui para defendê-lo, mas até hoje não sei o que ficou provado contra o Guaraci. Na minha opinião, todos delitos que aconteciam na cidade colocavam a culpa nele. Deve ter tido muita gente ruim que se aproveitou disso. Dizem que ele foi um Robin Hood, que tirava dos ricos para dar aos pobres. Sabemos que depois de sua morte, tornou-se um santo milagreiro para o povo. Seu túmulo até hoje é o mais venerado e com certeza isso não é à toa.

 

Diário – O senhor quer deixar alguma mensagem para a cidade? É que agora a gente vai conversar um pouco com sua mulher, porque a entrevista está se alongando e talvez não haja espaço para a publicação de todas suas fotos.

Jorge – Quero apenas agradecer a Deus por ter vindo residir em Marília, uma cidade bonita, que tem um povo hospitaleiro e na qual sou muito feliz com meus familiares.

 

                                                                  *****

 

Diário – E então, dona Odaléia Viana Marques, quando começou essa paixão pelos quadros e esculturas?

Odaléia – Há 40 anos, quando fomos ao Rio do Peixe atrás de argila para um trabalho escolar do meu filho Sérgio. A argila me fascinou, então comecei a confeccionar esculturas aproveitando vários tipos de material, como pano, pedra, jornal, entre outros. A inspiração também veio nas telas. Hoje são mais de 300 trabalhos aqui na garagem de casa. 

 

Diário – E de onde vem tanta inspiração?

Odaléia - É algo inexplicável, porque nunca programei nenhum trabalho. De repente parece que vejo uma luz, sinto uma vibração e começo a desenvolver uma imagem. Nesse período sinto a necessidade de estar sozinha, sem ser incomodada. Só depois de algumas horas é que a escultura está pronta. O mesmo acontece com os quadros.

 

Diário – E qual a reação das pessoas?

Odaléia – Elas perguntam: o que é isso? Então eu digo: é aquilo que você está vendo, é aquilo que está tendo um significado para você.

 

Diário – E a senhora nunca pensou em expor esse acervo?

Odaléia – Aconteceu somente três vezes: em Garça, onde fui premiada, no Senac e uma vez na secretaria municipal da Cultura, que foi um desastre. Quando fui recolher as obras estavam todas danificadas. Então a gente desanima, pela falta de interesse dos setores culturais e sobretudo pela falta de apoio em eventuais exposições. Imagine você ter que carregar nos carros todas essas peças, tábuas, cavaletes, descarregar, montar, depois guardá-las novamente... isso sem falar na falta de segurança.

 

Diário – Apenas uma curiosidade: já aconteceu de no meio de um trabalho acabar a argila?

Odaléia – Claro, mas aí é só ir até o quintal, pegar um pouco de areia, misturar com fubá e farinha e pronto. O único inconveniente é que a obra ganha um pouco mais de peso.

 

Diário – A senhora comercializa essas peças?

Odaléia – Não, são como meus filhos. Porém muitas pessoas vêm em casa, me trazem argila e cascorex (cola) e pedem uma imagem. Eu a confecciono gratuitamente. Mas, das minhas, eu não abro mão.

 

Diário – E de todo esse acervo fantástico, qual é o seu “filho” especial?

Odaléia – Uma pietá [piedade em português], bem ao estilo de Michelangelo. Representa Jesus morto nos braços da Virgem Maria.

 

Diário – Parabéns! Espera-se que alguém se sensibilize e possa ajudá-la a mostrar ao público esse talento.

Odaléia – Obrigada! Assim espero!


 

 

OBS. Matéria publicada no então jornal DIÁRIO DE MARÍLIA no dia 7/12/2008 pelo jornalista VADINHO DORETO

 

Nota do jornalista: a coluna agradece a colaboração da senhora Maria Garcia Calandrim, sobretudo na indicação dos entrevistados.



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