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ENTREVISTA - VÓ NENA

Atualizado: 6 de mar.


VÓ NENA, O VERDADEIRO SÍMBOLO DE AMOR E LIBERDADE





"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis". Com certeza, nas palavras de Fernando Pessoa encontra-se a tradução exata de Encarnação Olivas e Garcia Pacheco, a simpática Vó Nena, que no mês que vem vai apagar a velinha de número 98. Talvez muitos só a conheçam pelo memorável abril de 1992, quando, com 81 anos, ao saltar de paraquedas, tornou Marília mundialmente famosa ao entrar para o Guinness Book, o Livro dos Recordes. Mas o arrojo e a intrepidez dessa mulher não estão apenas embutidos na realização daquele salto que sonhara desde criança. Essas virtudes, somadas à perseverança, disciplina e dedicação, moldaram o caráter de uma numerosa família que há décadas alça variados voos em prol de uma cidade chamada Marília.

*****


Diário de Marília – Que beleza, quase um século de vida! Qual o segredo dessa longevidade?

Encarnação Olivas e Garcia Pacheco – Deus, o amor, a dedicação de meus filhos e as nossas incontáveis amizades sempre me deram vontade de viver e procurar as coisas belas da vida. Quando se gosta de viver, a vida se prolonga e nos ajuda a enfrentar os obstáculos.


Diário – E o estômago, precisa estar em sintonia com essas lindas palavras?

Vó Nena Veja bem, eu sempre gostei de suco natural e aprecio um bom vinho. Gosto de todo tipo de comida, nada em especial, mas não consigo dispensar de vez em quando uma feijoada e até uma pururuquinha.


Diário – A senhora acredita em horóscopo? Será que essa sua extroversão está ligada a ele?

Vó Nena – Perfeitamente, como toda taurina sou uma pessoa positiva, que busca realizações. Os nascidos nesse signo têm um temperamento um pouco forte, são pessoas obstinadas, perseverantes, trabalhadoras e que amam a vida. Por exemplo, a música. Eu adoro música. Aristóteles disse: “A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição”. Particularmente, adoro as antigas,

como sertanejas e serestas. E gosto demais do Roberto Carlos e do Sérgio Reis.


Diário – E a religião, Vó Nena?

Vó Nena – Fui criada dentro da Igreja Católica, religião que aprendi a praticar com meus pais.


Diário – Por falar nos seus pais, a senhora é uma legítima espanhola, não é?

Vó Nena – Sim, sou filha dos espanhóis Mariano Olivas Fernandes e Joana Olivas Martins. Nasci no dia 21 de abril de 1911, na cidade de Soriguella. Viemos para o Brasil em 1913 num navio de imigrantes. Acontece que a situação na Espanha estava difícil, com poucos empregos. Espalhava-se a notícia que o Brasil era uma terra fácil de se ganhar dinheiro. Os imigrantes aqui chegavam e já se empregavam na lavoura.


Diário – E veio toda família?

Vó Nena – Sim, meus pais e meus irmãos Mariano, Maria, Manoel, Francisco, Ângelo e Mathilde. Apenas a Maria está viva e reside em São Paulo.


Diário – Como surgiu o apelido de “Nena”?

Vó Nena – É por que eu era a menorzinha da família. Nena, em espanhol, que dizer menina.


Diário – Como foi o começo em terras brasileiras?

Vó Nena – Difícil, é claro. Imagine papai chegando num país com diferentes hábitos e cultura, sem conhecer ninguém e tendo que sustentar a família? Foi uma “via-sacra”. Moramos em Santos, Rio de Janeiro, São Paulo, Vera Cruz até chegarmos a Marília por volta de 1927. Papai já era um administrador de fazenda. Gostou tanto daqui que ficou. Primeiramente ele trabalhou na fazenda Marialva, até nos mudarmos para a cidade, num casarão de madeira da avenida Nelson Spielmann.


Diário – E sua infância?

Vó Nena – Tive muitas amizades, mas quero pedir perdão por não me lembrar de nenhum nome no momento.


Diário – Quais eram as diversões?

Vó Nena – Meu passatempo predileto sempre foi, desde criança, ficar observando os aviões. Como eu achava aquilo lindo... Deixava tudo que estava fazendo e ia pra fora de casa para poder contemplá-los até sumirem de vista. Sentia-me imensamente feliz admirando a obra de Santos Dumont. Meus pensamentos voavam. Também pensava: um dia ainda vou voar numa máquina dessa e se Deus quiser até pular de um paraquedas. Era o meu sonho. Quanto à minha infância, o que mais gostava era o encontro com a garotada na Nelson Spielmann, para brincar de pique, pular corda, roda e ouvir dos adultos histórias de assombração. A gente morria de medo. E sempre, quem animava a turma era o meu irmão Francisco, com sua linda voz e seu inseparável violão.


Diário – E os estudos?

Vó Nena – Naquele tempo só havia em Marília escolas isoladas. Eu estudei muito pouco. Mas não pense que papai se importou. É até engraçado. Para ele as moças só queriam aprender a ler e escrever, apenas para mandar bilhetinhos aos namorados. Pode?


Diário – Como a senhora conheceu o Antônio Garcia Garcia, seu primeiro marido?

Vó Nena – Foi em casa. Ele veio para uma festa juntamente com sua mãe, dona Carmem. À primeira vista, meus pais gostaram muito dele. E, é claro, eu também. Em seguida ele passou a frequentar nossa casa, com o consentimento de papai, mas sempre trazia a mãe. Iniciamos um namoro bastante vigiado, onde nem se podia pegar na mão. Sentávamos na sala com todos familiares e jamais ficávamos sozinhos. Ninguém saía à noite e o que mais se fazia era escutar novelas pelo rádio. Às vezes acontecia algum aniversário, casamento... Aí juntava bastante gente. Com um violão e sanfona improvisava-se um bailinho e todo mundo ficava contente.


Diário – Quando veio o casamento?

Vó Nena – Meus pais que marcaram o casamento, não fui nem eu. Ele aconteceu na Igreja de Santo Antônio, no dia 11 de maio de 1934. Pena não ter nenhuma fotografia. Até isso na época era complicado. Mas foi uma festa muito bonita. Tivemos como padrinhos o Adorcino de Oliveira Lyrio, que era muito amigo de papai e sua esposa Izabel, o João Lopes Rodrigues e Tomásia e o Júlio Garcia Munhoz, cuja esposa não recordo o nome.


Diário – Namoro, casamento... E os filhos?

Vó Nena – Ah, nem fale, eles são meu maior patrimônio, são a minha vida: Antônio (faleceu em 1960), Carmem (casada com o cardiologista Luiz Quijada), Joanna, Maria (esposa do João Calandrin), Dolores (casada com o José Monteiro Guedes), José Carlos (marido de Lúcia Campos) e a Darcy, que é viúva. Os netos são 18: Cristina, Eliana, Luiz Carlos, Carmem Luiza, Fernando, Renato, Júnior, Sandra, Edson, João Guilherme, Mariângela, Maria Cláudia, Marilena, Antônio Carlos, Tomaz Alexandre, Luiz Henrique, Roberto e Cláudia. Tenho 26 bisnetos (Aretha, Irene, Diego, Renato, Melissa, Luís, Fernanda, Luiz Daniel, Júnior, Juliana, Gabriela, Neto, Bárbara, Aline, Aleska, Maria Luiza, João Antônio, Maria Eduarda, Breno, Pedro, Paola, Paloma, Igor, Priscila, Néliton e Patiane) e dois trinetos, o Caio e o Ian.


Diário – Como foi criar sete filhos?

Vó Nena – Tive meus filhos numa época em que a mulher tinha mesmo que ser dona-de-casa, dona do fogão, do ferro de passar roupa, do tanque e dos demais afazeres da casa. Não tinha ninguém para me ajudar e nem tempo para nada. Porém, com a família aumentando, precisava ter um rendimento. Então peguei firme na minha máquina de costura. Costurei muitas roupas para as lojas da cidade. Os comerciantes davam as roupas cortadas e a gente fazia o resto. Era o que se chamava de “roupas de carregação”, ou seja, de costura rápida. Também fiz inúmeros vestidos de batizado e de noiva para a extinta Casa Enxoval, onde os donos, Rafael Nahas e sua esposa Rosa, se tornaram meus grandes amigos.


Diário – E o seu marido?

Vó Nena – Esse trabalhou a vida inteira. Nesse período, o Antônio tinha uma sapataria. Usavam-se muitas botinas e sapatões naquele tempo e era daí que vinha o nosso ganha-pão. Posteriormente surgiram os sapatos prontos, muito mais fácil de se vender, do que aqueles que o Antônio confeccionava na sapataria. Então, o que ele fez? Desistiu da loja, em virtude dos encargos, sobretudo com funcionários. Passou a comprar calçados prontos das grandes fábricas do Estado e revendê-los diretamente para os comerciantes. Depois ele resolveu abrir mais um comércio, a Casa Santo Antônio. Uma loja de variedades, muito procurada principalmente pelos artigos religiosos. Antônio comprava os produtos na região de Guaratinguetá e os revendia até para as igrejas. A população nesse tempo era muito fervorosa, religiosa, diferente de hoje. Quando a loja mais prosperava, ele veio a falecer, em 1969, aos 63 anos. Tivemos uma vida modesta, mas muito feliz. Criamos nossos filhos com muito amor e graças a Deus eles aprenderam o caminho do respeito, educação e honestidade.


Diário – Aí a senhora conheceu um novo amor?

Vó Nena – Sim, me casei pela segunda vez em 16 de novembro de 1974, na Igreja São Bento. Foi com o José Honorato Pacheco, uma pessoa que tinha um coração de ouro. Após ficar viúva novamente, resolvi correr atrás de meu grande sonho: saltar de um paraquedas. Afinal, estava viva, nada me impedia.


Diário – Antes de a gente abordar esse assunto que a tornou conhecida internacionalmente, responda uma coisa: a senhora participou da vida política de Marília?

Vó Nena – Meu primeiro marido gostava de política. Como disse anteriormente, ele tinha grande amizade com o capitão Adorcino de Oliveira Lyrio, que chegou a ser prefeito de Marília. Queria aproveitar esse espaço e falar que o Adorcino foi um prefeito brilhante. Construiu muitas obras e era adorado pelo povo.


Diário – Analisando a cidade hoje, o que a senhora faria se fosse a prefeita?

Vó Nena – Evidente que tentaria resolver em definitivo o problema do abastecimento de água. No mais, acho que todo governante tem que amar seu povo, tem que ter coração e administrar a cidade sem visar interesses pessoais, sem corrupção, destinando as benfeitorias primeiramente para o sofrido povo dos bairros periféricos. Esse pessoal precisa ter acesso fácil à saúde e educação. Precisa de transporte, segurança e outros direitos que lhes são facultados pela Constituição.


Diário – Bem, agora vamos falar um pouco sobre seu primeiro salto de paraquedas. Como tudo aconteceu?

Vó Nena – Foi em 1992, com 81 anos. Lembro-me que acordei num domingo com o barulho de muitos aviões e os paraquedistas coloriam a cidade em mais uma festa pelo aniversário de Marília. Pedi à minha filha Joana que me levasse ao aeroporto para ver os shows acrobáticos. De repente, perto de mim, fiquei observando um paraquedista. Até que disse a ele: - Sabia que guardo o sonho de saltar de paraquedas? Ele me informou que os saltos estavam agendados para a tarde. Perguntei se poderia saltar. E ele: - É só ter coragem! E coragem foi uma coisa que nunca me faltou na vida. Aí marquei meu salto às 14h e só avisei aos familiares momentos antes. A ansiedade era grande. De repente me vi dentro de um avião sem portas, com o ronco do motor nos meus ouvidos, céu azul, coração acelerado. Então saltei. Queria que aqueles minutos durassem horas, queria mesmo que o tempo parasse. Olhei calmamente a cidade lá do alto e saboreei aquele momento como sempre sonhei, ou seja, o vento beijando o meu rosto. Entrei consequentemente para o Guinness Book, como a mulher mais idosa a saltar de um paraquedas.


Diário – E depois?

Vó Nena – Depois não parei mais. Em seguida foi agendando um salto para o programa Fantástico, da TV Globo. Disse ao pessoal da produção que desejava também voar de asa-delta. E não é que eles mandaram uma equipe para cá? E lá fui eu de novo, agora de asa-delta. Posteriormente também experimentei a aventura num planador e até em balão. Compensou a longa espera. Meu sonho estava realizado.


Diário – Como foi a reação do público?

Vó Nena – Só alegria. Fui notícia em toda mídia. Recebi centenas de telegramas e telefonemas me parabenizando. Recebi medalhas, cartões de prata, homenagens da Câmara, do Sesi, Dia Internacional da Mulher, Caminhada da Primavera, núcleos da 3ª idade, Associação Centro-Oeste Paulista, Conselho Regional de Idosos de Marília, Quartel da PM – CPAI-4, clubes de serviço e muitas outras instituições.


Diário – Quando veio a homologação do seu feito no Livro dos Recordes?

Vó Nena – Boa pergunta. Para fazer parte do Guinness, um dos livros mais vendidos no mundo, precisa-se de muita comprovação. Mas, no meu caso, é óbvio que não havia dúvida. Acabei ficando amiga da senhora Solange, representante do livro no Brasil, que ia me informando sobre o andamento da homologação. Certo dia estava em casa com meus filhos, que nunca deixaram de me apoiar nessas peraltices, quando foram me levar o livro. Ao ver meu nome e minha foto, caí num choro incontido. Foi realmente um dia inesquecível.


Diário – Finalizando esse papo agradável, como a senhora pode resumir a sua vida?

Vó Nena – Como um sonho. Vou caminhando para os meus 98 anos de idade. Quase um século. Não senti, apenas vivi. A vida nos proporciona muitas alegrias. Ela é como uma rosa: linda, perfumada e colorida, mas que também tem espinhos e fenece. Vivi intensamente dentro dos meus limites. Cada época no seu tempo. Toda minha vida me deixa saudades. Orgulho-me da cidade de Marília e de sua gente. Amo cada pedacinho desse chão, cada rostinho desse povo. E mando um conselho: a vida é preciosa e pertence a nós. Não podemos perder as oportunidades que ela nos oferece. Se você tem um sonho, corra atrás dele. Ouse! Realize! Desculpe-me, Vadinho, já ia me esquecendo: parabéns a nós mulheres, pelo nosso dia hoje. Lembre-se: 100 homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar.



NOTA DO JORNALISTA: Vó Nena reside há 70 anos na rua Inconfidência. No final do ano passado um probleminha de saúde comprometeu parcialmente sua locomoção. Ela é assistida diuturnamente pela filha Joanna, a quem a chama de “anjo-da-guarda”. Está sempre reunida com os familiares e exibe sua simplicidade com muito charme e um sorriso cativante. Vó Nena tem a companhia de duas grandes paixões, as cadelinhas da raça poodle, Camile e Camila. Ela é uma lição de vida. Divulgou positivamente o nome de Marília no planeta. Marília, que se colocada na balança, sempre pendeu mais para o lado negativo, sobretudo em virtude de políticos inescrupulosos. Será que ela não merecia ser agraciada pela Câmara com a láurea de Cidadã Mariliense? Com a palavra os nobres edis.


VÓ NENA morreu no dia 4/11/2013 aos 102 anos.


ENTREVISTA PUBLICADA NO DIA 8 DE MARÇO DE 2009 NO JORNAL DIÁRIO DE MARÍLIA – JORNALISTA VADINHO DORETO


FOTOS: g1.globo.com











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