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ENTREVISTA - OCTAVIO GRADIM

Atualizado: 19 de mar.



A FAMÍLIA, O TRABALHO E A CARIDADE NA VIDA DE OCTAVIO GRADIM


(ENTREVISTA CONCEDIDA EM 2/8/2009) 




A coluna “Minha Cidade, Minha Vida” retorna neste domingo retratando a trajetória de mais uma família que até hoje tem grande parcela de contribuição no progresso de Marília. E a história de luta e dificuldades de Octavio Gradim não difere muito das outras relatadas nesta página. Filho de pai provavelmente de ascendência portuguesa e de mãe italiana, esse simpático senhor, que em setembro completa 97 anos, recebeu a reportagem do Diário em sua modesta residência na rua Cel. Galdino de Almeida, 266, e abordou diversos assuntos desde a chegada da família em 1931, quando Marília ainda comemorava seu segundo aniversário. A memória de Octavio Gradim surpreende. Continua infalível. O tempo também é seu aliado. Afinal, ele tem quase um século de vida e continua esbanjando saúde, lucidez e bom-humor. E o que é melhor: considera-se uma pessoa realizada e tem a família como seu maior patrimônio.

 

 

                                                     ****

 

 

Diário de Marília – De onde vieram seus pais?

Octavio Gradim – Difícil saber exatamente qual a origem da família de meu pai, Álvaro Gradim. Talvez seja portuguesa. Ele nasceu no município paulista de São Carlos. Já minha mãe, Idelmina Gabaldi Gradim, nasceu na comuna italiana de Stienta, região de Vêneto, província de Rovido.

 

Diário – Onde eles moraram?

Gradim – Papai trabalhou a maior parte de sua vida em fazendas na região central do Estado. Eu nasci em Araraquara no dia 3 de setembro de 1912. Quando tinha seis anos, mudamo-nos para a cidade de Santa Adélia, que pertence à região administrativa de São José do Rio Preto. E foi lá que passei a infância e adolescência com meus irmãos.

 

Diário – E por falar nisso, quantos irmãos o senhor tem?

Gradim – Éramos sete, porque o Raul (barbeiro) e o Zoaldo (alfaiate) já faleceram. O Zoaldo, aliás, recentemente. Eu sou o mais velho, seguido pelo Antônio (alfaiate), a Ana (dona-de-casa), a Maria Clarisse (funcionária pública aposentada) e o caçula Walter, que também se aposentou como bancário.

 

Diário – E o que essa garotada aprontava na pequena Santa Adélia no começo do século 20?

Gradim Nossa educação foi muito rígida. Papai era o que se podia se chamar de “linha-dura”. E quem o desobedecesse entrava no castigo. E mamãe sempre o apoiava.

Numa cidade muita pequena as opções se resumiam em futebol com bola de pano, apostar corrida, salto em extensão, garrafão (como a gente apanhava) e pescaria. Uma infância simples, mas muito tranquila, porque não havia essa insegurança de hoje onde as crianças necessitam de atenção redobrada até para brincar na frente de suas casas.

 

Diário – E os estudos?

Gradim – Só fiz até o terceiro ano do grupo. Meu professor se chamava Colatino Seixas.

 

Diário – O senhor trabalhou em Santa Adélia?

Gradim Sim, em loja de secos e molhados e também aprendi o ofício de protético.

 

Diário – E o seu pai continuava trabalhando na lavoura?

Gradim - Numa certa época ele deixou a zona rural de lado e com algumas economias adquiriu uma padaria na cidade, cujo nome era Central. Só que ele tinha um grave defeito, ou seja, gostava de jogar baralho. Quando eu tinha uns 13, 14 anos, veio o revés: por causa do maldito jogo ele perdeu tudo o que tinha, ficando, posso falar, literalmente na lona.

 

Diário – E depois?

Gradim Bom, já se espalhava a notícia de que a região de Marília estava prosperando bastante. Ele veio sozinho até aqui e, mesmo sem dinheiro, ofereceram-lhe uma oportunidade de adquirir uma padaria, que pertencia ao senhor Carmo Clemente. A falta de energia elétrica e outros contratempos o fizeram desistir. Era um período de crise, por volta de 1927/28. Novamente em Santa Adélia fomos tocando a vida, até que em 1931, mamãe disse pra ele: “Vamos para Marília e seja o que Deus quiser. Fique sossegado que os meninos se viram”.

 

Diário – Como foi a chegada na terra de Bento de Abreu Sampaio Vidal?

Gradim – Chegamos exatamente em 14 de março de 1931, quando eu tinha 18 anos. Primeiramente fomos morar na casa do senhor Mascaro, perto de onde hoje é o Colégio das Irmãs. Aí realmente começamos uma nova vida.

 

Diário – Qual a primeira impressão sobre a cidade?

Gradim - A cidade impressionou. A flora e fauna eram exuberantes, muitas árvores, muita mata, muita caça... mas também muita cobra e muitos índios da tribo Caicangue, que habitavam a região de Padre Nóbrega, mas não incomodavam ninguém. Ruas todas de terra, os carros pés-de-bode, a famosa Casa Verde, a farmácia do Venâncio de Souza, o Cartório de Paz do Vidal de Negreiros e a certeza que Marília teria um futuro promissor.

 

Diário – E aí partiu todo mundo para o trabalho, não é?

Gradim – Papai arrumou serviço como servente de pedreiro no cemitério. Ganhava três mil réis. O Antônio começou a tocar na banda da Prefeitura e isso lhe facilitou uma colocação. Seu salário era de cinco mil réis. E eu tinha um rendimento de dois mil réis, trabalhando na casa de secos e molhados Tem Tudo.

 

Diário – Esse foi seu primeiro emprego na cidade?

Gradim Sim, como atendente dessa atacadista, que tinha como sócio o João Batista de Carvalho. Ficava na esquina da rua 4 de Abril com a Prudente de Moraes. Ali fiz diversos amigos e posso citar o Nassimi e o Michel Mussi, o Cavalari, o Benizel Arantes, o Bufolin, o Camilo e o Antônio Tanuri e também o Higino Muzzi, o Virgilio Cavalari e o Reinoso.

 

Diário – E os outros empregos?

GradimBom, na Tem Tudo fiquei durante cinco anos. Em seguida fui para a Casa Bonfim, que pertencia ao Jorge Mansur Filho. Ainda trabalhei na Casa Bertoni Soares, Mercado Municipal, Casa Formosa (ficava na rua 9 de Julho, de propriedade dos irmãos Uemura), até montar meu próprio negócio, a Casa União, em 1º de novembro de 1950.  Também de secos e molhados, ela funcionou durante 28 anos na rua Coronel Galdino de Almeida.

 

Diário – E como foram essas quase três décadas à frente da Casa União?

Gradim Você sabe que no passado a rua Coronel Galdino era um reduto de sitiantes, na maioria pessoas humildes que geralmente faziam suas compras nos finais de semana. Mas eu vendia pra todo mundo, principalmente para as famílias tradicionais, como os Almeida, Oléa, Montolar, Maldonado, Giroto, entre outras. Era um pessoal que gastava muito e pagava religiosamente em dia. O mesmo não acontecia com inúmeros sitiantes.

 

Diário – O fiado pode ter sido a razão de seu comércio ter fechado em 1978?

Gradim Evidente que comprometeu, mas com a chegada dos grandes supermercados a situação foi ficando complicada. E isso acontece em outras atividades. Se você não se adequar ao progresso, você padece. Na União devo ter levado um calote em torno de 300 mil reais, no dinheiro de hoje. Mas você pensa que eu lamento? Jamais! Foi ali que consegui proporcionar um estudo de alto nível para todos meus filhos e o que é mais importante, ajudei durante vários anos a matar a fome de muita gente. Tenho muito orgulho disso porque eram tantas pessoas pobres que não tinham um pão para colocar na mesa.

 

Diário – Quando chegou a Marília, quais eram as opções de lazer da população?

Gradim – Os pobres, como eu, vamos falar assim, divertiam-se com o footing (flerte) na Sampaio Vidal, engolindo muita poeira. Já os ricos tinham os restaurantes e bordéis para esticar a madrugada.

 

Diário – Como o senhor conheceu sua esposa, a Regina Caliman?

Gradim Naqueles tempos namorar era muito complexo. Quando se conseguia pegar na mão da garota era uma vitória. Certa noite, num evento festivo perto da Prefeitura, avistei a Regina e a flechada foi fulminante. Fiquei apaixonado e a recíproca foi verdadeira. Só que a gente apenas se comunicava através de bilhetes. Quando já estávamos namorando às escondidas, mandei um recado para o pai dela, o João Caliman, dizendo que queria tê-la como esposa. A resposta foi imediata: “Espere sentado”.

 

Diário – E o que o senhor fez?

Gradim – Como não tinha outro jeito, disse a ela: vamos fugir!

 

Diário – O quê?

Gradim  Isso mesmo, combinamos fugir para nos casarmos em outra cidade. Eu tinha 23 anos e ela 18.

 

Diário – Não foi uma atitude ousada para os padrões da época?

Gradim Sim, mas o amor não tem limite. Consegui alugar um carro e rumamos para Paraguaçu Paulista. Mas a aventura não demorou muito. O Belantani, autoridade policial da cidade, acabou nos localizando no dia seguinte e tivemos que voltar a Marília, direto para a delegacia de Polícia. E lá o rolo já estava armado e o pai dela querendo que eu fosse preso.

 

Diário – E daí?

Gradim Bem, eu trabalhava na Casa Bonfim, do Jorge Mansur Filho, uma pessoa respeitada na região. Ele jogou pesado: “Funcionário meu não vai pra cadeia de jeito nenhum”. Foi uma novela com um final feliz, pois nos casamos no dia 17 de abril de 1936.

 

Diário – E os filhos?

Gradim: Tivemos cinco, excelentes profissionais e com muita aptidão para a música: Clélia (diretora de Emei e violonista); Cleide (professora e pianista); a Célia Regina e a Cláudia, ambas bancárias e também pianistas e o Otavinho, bacharel em Direito e Diretor de Cartório.

 

Diário – Vamos agora aos netos e bisnestos.

Gradim Vamos lá! Mas primeiro quero citar os meus genros Francisco, Dirceu, João Luiz e o José. Minha única nora se chama Sueli Regina. Netos são 15: Leda, Álvaro, Fernando, Marcelo, Renato, Mônica, Fábio, Gabriela, Marcos, Carolina, José Vinícius, Taís, José Guilherme, Otávio Neto e Maria Eduarda. E tenho 14 lindos bisnetos: Rodrigo, Ricardo, Maria Flávia, Gabriel, João, Fernanda, Carolina, Álvaro Filho, Rafael, Bruno, Antônio, Júlia, André e Victor. 

 

Diário – Em 1986 o senhor iria comemorar bodas de ouro, 50 anos de união com a esposa Regina. Porém, dois anos antes, ela veio a falecer. Como o senhor enfrentou a situação?

Gradim A Regina foi tudo na minha vida, foi o meu esteio. Era uma pessoa indescritível. Sábia, corajosa, conselheira, foi essencial para toda a família. Era também uma costureira exemplar, confeccionando com esmero enxovais (de renda) belíssimos. E nunca me deixava desanimar nas eventuais vicissitudes. Sempre pensou positivo e seu otimismo era contagiante. Infelizmente, por complicações do diabetes, veio a falecer subitamente nos meus braços, aqui na rua Coronel Galdino. Mas ela, tenho certeza que está feliz pelos nossos filhos, pela nossa maravilhosa família, um tesouro que não tem preço.

 

Diário – O senhor teve também atuação destacada em muitas entidades de Marília. Como foi isso?

Gradim Em todas as instituições que integrei o espírito sempre esteve voltado para a filantropia. Fui tesoureiro da Associação Comercial (administração Armando Biava), Associação dos Jornaleiros e Engraxates, Lar das Crianças, Irmãs Carmelitas, Irmãs Franciscanas (Nossa Senhora da Glória), realizei encontros de cristandade e de casais e muitas outras atividades na paróquia de Santo Antônio. Não posso me esquecer que na Santo Antônio, junto com o padre Osório e a Marta Feres, participei de muitas campanhas de arrecadação de cobertores e calçados para as famílias carentes. 

 

Diário – Voltando à sua juventude, o senhor foi também um esportista?

Gradim Como se diz por aí, dava minhas cassetadas. Pratiquei um pouco de atletismo, a tal ginástica sueca [atividade física que se preocupa com a execução correta dos exercícios, emprestando-lhes espírito corretivo; é conhecida como ginástica das posições], o então chamado pingue-pongue e também basquete e futebol. Tínhamos uma turma boa e participamos de muitos torneios nas cidades mais próximas de Marília.

 

Diário – Vamos falar um pouco de futebol. Pra qual time o senhor torce?

Gradim – Corinthians grande, sempre altaneiro, é claro. Mas sou do tempo em que o futebol era jogado com amor à camisa, e não como hoje, com esse enxame de mercenários. Sou do tempo de craques corintianos como o Cláudio Cristóvão do Pinho, o Gerente, que jogou no clube durante 15 anos e disputou 509 partidas na equipe principal; do Teleco, dono da melhor média de gols de todos os tempos: 243 gols em 234 jogos; do Baltazar, que colecionou títulos e marcou 267 gols pelo Corinthians, no período de 1947 a 1958. Ele era conhecido como o Cabecinha de Ouro e foi o melhor cabeceador do futebol brasileiro em todos os tempos. Outro grande craque que não pode ficar esquecido é o goleiro Gilmar dos Santos Neves. Ele defendeu o gol corintiano durante dez anos (1951 a 1961) com tanta categoria que foi titular absoluto da Seleção Brasileira nas memoráveis conquistas dos títulos que deram ao Brasil o bicampeonato mundial, em 1962, no Chile. E por aí vai. Atualmente jogador e técnicos são dinheiristas ao extremo. Onde já se viu esse Muricy Ramalho pedir 700 mil reais por mês para dirigir o Palmeiras? E esse Luxemburgo que exige 600 mil só para ele e mais 400 mil para a sua comissão técnica? Um absurdo!

 

Diário – E quanto ao Mac?

Gradim Acompanhei toda a história do time e também do extinto e glorioso São Bento. O futebol em Marília sempre viveu de altos e baixos. No cenário nacional, acredito que com o parco apoio que o Tigrão tem atualmente, a série B do Brasileiro está de bom tamanho. A gente espera que ele volte a conseguir o acesso. Já o rebaixamento no Paulistão foi inaceitável. A equipe tem condições de estar entre as 20 melhores do Estado.

 

Diário – Politicamente falando, o senhor conheceu todos os prefeitos de Marília, certo?

Gradim Todos, sem exceção.

 

Diário – E que avaliação o senhor pode fazer deles?

Gradim – Eu não vou entrar no mérito de cada administração. Acredito que cada um teve seus méritos e deméritos. Às vezes se erra querendo acertar, outras vezes se erra querendo se enriquecer. É preciso conduzir à Prefeitura aquele cidadão que tem passado probo e compromisso com a população. Eu votei no Mário Bulgarelli e confesso que tinha até me arrependido. Porém, hoje, faço outra ideia: ele está fazendo uma boa gestão, quebrando tabus e tem tudo para fechar seu governo com chave de ouro. Também quero dar os parabéns para sua esposa Fátima. Nunca Marília teve uma primeira-dama com tanto trabalho destinado aos mais desfavorecidos pela sorte.

 

Diário – E na sua opinião, quais os problemas mais graves que a cidade enfrenta hoje?

Gradim – Sem dúvida é a questão do abastecimento de água. Falta ao prefeito exigir mais empenho da diretoria do Daem, porque as contas aparecem todo mês, mas a água, nem sempre. A gente que reside aqui no centro, geralmente não enfrenta essa dificuldade, entretanto, na periferia, o martírio permanece. Outra questão que espero que o prefeito resolva é o asfalto. A cidade cresceu muito e há muitas ruas sem pavimentação. No ritmo que o Bulgarelli está, vai conseguir, proporcionando mais conforto para os munícipes e motoristas.

 

Diário – O senhor é uma pessoa realizada?

Gradim Não tenho dúvida. Como já disse anteriormente, meu maior patrimônio é minha família. Todos bem encaminhados, vivendo com muita paz e saúde. A harmonia deve prevalecer em todos os lares e os ensinamentos de uma vida digna e honesta têm que passar de geração para geração. Como já dizia Cora Coralina [poetisa e contista, que produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás]: feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

 

Diário – Para encerrar, o senhor pode dar a receita dessa longevidade?

Gradim Cachaça, couro de porco, feijão e caridade [muitas gargalhadas].

 

  

NOTA DO JORNALISTA – O irmão caçula de Octavio é o desportista Walter Gradim, pessoa renome na cidade, sobretudo por ser um dos precursores do futebol society e proprietário da famosa Toca da Mina. Mas se engana quem pensa que ele denominou sua chácara em virtude da fartura de nascentes naquela região. O nome Toca da Mina é uma homenagem à sua querida mãe, a senhora Idelmina Gabaldi Gradim.


ENTREVISTA PUBLICADA NO DIÁRIO DE MARÍLIA NO DIA 8 DE AGOSTO DE 2009 -JORNALISTA VADINHO DORETO







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